terça-feira, 15 de abril de 2014
Pessoas Mudam
A minha mãe tinha uns livros que eu namorava cada final de tarde que passava sózinha em casa, tentando imaginar o conteúdo de cada um.
Um dia depois de ter pegado fogo a um maço de algodão e álcool para ver o que acontecia, subi a um banco escolhi um e comecei a ler.
Li sem parar e em poucas horas estava lido, o livro era uma carta de uma mãe a um filho que não nasceu e no percurso que fiz para o devolver ao sítio onde pertencia, tomei a decisão que não queria ser mãe, nunca, não queria jamais aproximar-me do que ali estava descrito.
O tempo passou e eu nunca pegava em bebés, os filhos dos outros eram muito giros no colo dos pais, recusava me a pegar-lhes achava até que me davam azar.
Quando me cruzava com bebés que tinham acabado de dar os seus primeiros passos ficava horrorizada, pareciam bonecos que a qualquer segundo desmontados pela iminência de uma queda.
Mas um dia eu mudei o meu coração mudou e após muitos anos eu peguei naquela que era a minha criança, e passei a amar alguém mais do que a mim própria.
Passei a dar sem ter recebido, a gastar toda a minha energia o meu tempo e o meu dinheiro.
Anos mais tarde voltei a poder sentir a mesma alegria o mesmo amor, que não cabe no coração no peito no corpo na mente. Nem tão pouco nas lágrimas que correm incontroláveis pelo rosto.
Pensava que ia dividir todos os sentimentos, mas não, eu simplesmente multipliquei esta estranha forma de amar.
Amar uma criança é ter paciência, é cuidar, é dar sem receber nada em troca, é viver como se me tivesse transformado num suporte de livros e aguardar pacientemente a altura em que for necessário aparar as suas quedas.
Amar assim é desconfortável e inconveniente, eu diria que as pessoas mudam que é possível passar a viver por alguém, principalmente quando esse alguém são os nossos filhos.
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