quarta-feira, 5 de março de 2014

Eu Já Tive.



Eu já tive um pai, que era o meu porto de abrigo, esse pai defendia que ninguém era insubstituível, esse pai era o melhor a desempenhar o seu trabalho apesar do que defendia. Apesar disso por causa do seu trabalho "prejudicou" várias vezes a sua família.

Um dia, mal tinha acabado o seu trabalho, num dia de um esforço mais esforço que o habitual, o seu coração não aguentou e deixou-me desamparada de um momento para o outro sem aviso sem me permitir fazer e dizer tudo o que ficou por dizer.

O meu telefone tocou com aquela que viria a ser a pior notícia de toda a minha existência, e esses segundos foram partilhados com aquele que viria a ser a substituição natural do meu novo porto de abrigo.

Essa pessoa que esteve ao meu lado, também nesse dia recebeu uma notícia igual, o seu avó teria partido para sempre.

E Apesar de ter-mos andado à deriva algum tempo acabámos por regressar a porto seguro, ao lado um do outro.

E quando consegui pensar de novo, cheguei à conclusão que gostaria muito de ter tido uma carta do meu pai, algo escrito dele para mim, mesmo que não fosse nada de especial em vez disso fiquei com o boletim de jogos que tinha célinha escrito no topo.

Um dia, quando eu desapareceu vou querer que as minhas filhas leiam algo que eu tenha escrito para elas. Vou querer deixar por escrito aquilo que lhes digo diariamente as coisas boas e também as coisas más, afinal assim sou eu persistente como tudo.

Vou tentar que sempre que sentirem que lhes estão a tirar o tapete debaixo dos pés possam procurar algum conforto em algo que eu lhes deixarei, vou tentar que não procurem esse conforto em mais ninguém que não o tentem substituir, para que possam andar à deriva apenas uma vez, e de uma vez só.

Vou tentar que dependam apenas de si e da leitura como forma de aconchego e sossego.

Vou tentar que se lembrem sempre de mim e como dei sempre tudo por elas.

Vou continuar a tentar construir tudo isto para elas.

Vou continuar a alimentar a ideia que ninguem é insubstituível a não ser no amor, nas coisas e na forma como opartilham com os outros, ai ninguem nunca poderá ocupar o mesmo lugar, o mesmo espaço no coração.



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